Laura Miranda e Mônica Infante

Sítio de criação: Riacho que integra a bacia hidrográfica da represa do rio Passaúna, área de proteção ambiental, Região Metropolitana de Curitiba, PR, Brasil.


O processo de criação se iniciou com uma série de experiências durante viagens à Índia, desde uma enfermidade curada em leitos hospitalares, o acompanhamento de rituais de cremação até o contato com o trabalho familiar e as técnicas tradicionais1 de tingimento, situações vivenciadas e presenciadas pelas artistas. Nessa itinerância por tantos lugares, a própria ideia de leito vai se traduzir em metáforas para os segredos do corpo ou em sentidos como o raio de luz e a direção do vento. A somatória dessas significações aponta para trajetos em que a percepção do espaço surge na relação com a amplitude e a velocidade.
Ao escolher um local, decidiu-se por um riacho, de difícil acesso, em meio à mata, espaço formado por um pequeno vale. Foi a partir da imersão nesse meio e da documentação botânica de samambaias e liquens que se desenvolveu um argumento conceitual e uma paisagem cênica para o trabalho, tomando as direções fornecidas pelo sítio. As artistas, ao entrarem no córrego, vão ser contornadas pelo escoamento dos elementos: leite, índigo e ouro em pó. Forma-se uma tríade com as variações dos corpos, movimentos e velocidades em devir: animal, vegetal e mineral.
As posições e os movimentos do corpo se combinam em três situações: no começo, as artistas agachadas, marcam linhas diagonais de corte no horizonte e as produzem em direções opostas. O leite parece escorrer e transbordar do corpo. Síntese de cor, o branco surge da velocidade rotatória do disco cromático. Sentadas, experimentam as dobras do corpo e do tecido criadas a partir do movimento em espiral. Enquanto as águas do córrego refletem o azul do céu e, simultaneamente, surgem tingidas pelo índigo, os micromovimentos e a cor confirmam um percurso a céu aberto em que os trajetos provocam as paradas. Na última posição, os corpos ficam deitados circulados pelo pó de ouro carregado pela água em ultravelocidade, sem peso. O ouro se desmaterializa no brilho, suspenso no ar, transportado pelo vento, como os esporos das samambaias.
A longa permanência no leito do riacho possibilita mudanças de estados do corpo ao ser atravessado pelos fluxos do ambiente. Esse mergulho cria as condições para a escuta e a sinestesia.
Nesse mapa de criação, a ideia de simbiose entre as algas e os fungos, a origem dos liquens, contém uma relação de proteção e alimento e, também, responde por uma das direções que foram configuradas nesse trabalho.